contacte-nos, exponha-nos o projecto que tem em mente. Teremos seguramente... a fórmula ideal para si.

               
 

Página Inicial

Quem Somos?

Cd´s Editados p´la Fadistas.com

Letras e Play- Backs de fado

Guitarra Portuguesa

@fadistas.com

Verónica Aranda

É do conhecimento geral que muitos estrangeiros se têm interessado pela área genuinamente
portuguesa... o FADO.
Há porém casos que são dignos de destaque pois ultrapassam o simples interesse.
É o caso da nossa amiga madrilena Verónica Aranda.
Durante a sua estada em Lisboa que se prolongou durante um ano frequentando na
Faculdade de Letras um curso de aprofundamento da nossa língua e cultura, viveu de tal modo o
Fado, que o seu trabalho final de curso versou exactamente esta forma de expressão lusitana.
Obrigado Verónica!
É para nós uma honra podermos ter este trabalho disponível para os nossos amigos.

 

 

 

 O FADO

E  A  SUA

     MITOLOGIA

 

 Verónica Aranda Casado

 Literatura Oral e Tradicional

 Prof. João David Pinto Correia

 Erasmus. Estudos Portugueses

 Universidade de Lisboa

 Faculdade de Letras

 ÍNDICE

 

 

 

 

1)Introdução

 

2) O Fatum e o meta fado

 

3) A saudade portuguesa

 

4) O mar

 

5) A mitologia fadista

 

6) Os espaços do fado

 

7) Os sentimentos

 

8) Conclusão

 

9) Bibliografia

 

 

 

 

 

 1-INTRODUÇĂO (Definição e origens)

 

O fado é a canção de Lisboa por excelência e, como outros géneros – tango ou  samba – é um fenómeno urbano e relativamente recente. Os primeiros documentos encontrados que se referem a este género datam de finais do século XVIII.

Sobre as origens do fado há todo tipo de opiniões divergentes, desde as teses da herança árabe, às que o ligam às músicas africanas e brasileiras, passando pelas teses trovadorescas e marítimas. Mas, em realidade, o fado é fruto dum lento evoluir de vastas influências culturais que se foram entrecruzando, ajudadas também pela situação geográfica de Lisboa, aberta a todo tipo de intercâmbios comerciais e culturais. Assim, além das influências das músicas do norte da Europa, da cançoneta italiana e das modinhas, há uma clara fusão com as músicas africanas e o lundum no que respeita aos ritmos sincopados, a improvisação sucessiva sobre uma base melódica estável e aos movimentos ondulantes. Também no Brasil, o fado começou sendo uma dança de escravos para difundir-se depois nas classes aristocráticas. Este aspecto de fado dançado, que muitos escritores na época recolheram e criticaram pelo seu lado obsceno, perdeu-se em Portugal, mas manteve-se em África e no Brasil.

Se estima a chegada do fado a Lisboa nos alvores do século XIX e as primeiras manifestações da prática sistemática, na década de 1840. De origens populares, confinou-se aos bairros e aos ambientes marginais da cidade, entre eles os prostíbulos e as tavernas. Um folheto de cordel de 1833 descreve assim às primeiras fadistas:

 

                        “Essas que em tascas imundas

                        sempre de copo na mão,

                        desgrenhadas, descompostas,

                        de dia e de noite estão...”

 

            Assim, o fadista tornou-se num verdadeiro tipo social caracterizador da cidade de Lisboa que vários autores descrevem, acentuando-lhe os modos de vestir, a gestualidade canalha, a postura indolente e a linguagem, que é o traço mais distintivo, pois também muitas letras de fado castiço incluem o calão para enfatizar o meio fadista ou para pôr uma nota de ironia. Estes retratos prototípicos do fadista, ajudam-nos a situar, em meados do século XIX, uma sociabilidade de tónus marginal em torno de actividades precárias, condutas consideradas fora da norma, delinquência, rufiagem:

                        “Era a canção da bebedeira e do calão,

                        da Amendoeira  e Capelão

                        e dos fadistas de samarra.

                        E malvivia em Madragoa e Mouraria...”

                                                                       (Canção de Lisboa)

 

Deste modo, a faca, o calão e a tatuagem, são símbolos que retratam muito bem esta primeira época do fado, género que nas últimas décadas do século XIX, chega aos salões aristocráticos e aos teatros e começa a ter uma difusão e prática gerais.

Em termos musicais, o fado mais antigo é o Fado castiço, também conhecido pelas designações de rigoroso, tradicional e fado fado, e engloba um conjunto de três fados básicos e anónimos: Corrido, Mouraria e Menor. Diz Raul Nery que estes fados se distinguem de todos os outros por terem um padrão de acompanhamento fixo que consiste num motivo melódico repetido, por vezes com ligeiras variações. Utilizando este padrão como base, a melodia é improvisada e podem-se-lhe adaptar várias letras, sendo as quadras as mais usuais. O padrão de acompanhamento, o esquema harmónico e a métrica são os elementos identificadores destes fados e são fixos. Todos os outros elementos podem variar. Estes fados, com uma estrutura melódica simples, deixam brilhar toda a riqueza de improvisação da voz, ou seja o estilar de cada um.

 

 

           

                        2-O FATUM E O “META FADO”

 

 

Etimologicamente a palavra fado deriva do latim fatum que quer dizer Destino, na acepção de Predição: a vida preconizada pelo Oráculo e que nada poderá alterar. Este termo já aparecia nas epopeias e tragédias greco-latinas, sendo-lhe atribuído o poder de fixar, irrevogavelmente, o curso dos acontecimentos, as vidas dos homens e dos povos. Isto marcou decisivamente a cultura portuguesa, mas sobretudo a experiência da partida, dos barcos. Camões já introduziu o termo “fado” na sua lírica, como neste soneto que, como dado curioso, foi musicado por Alain Oulman e interpretado por Amália Rodrigues:

 

            “Com que voz chorarei meu triste fado

            Que em tão dura prisão me sepultou,

            Que voz na seja a dor que me deixou

            O tempo de meu bem desenganado.”

                                                                (Com que voz)

            O fado, fiel a sua etimologia, passa a ser, desde os seus inícios, a canção do Destino, nesta concepção de imutabilidade do curso da vida, inclusivamente capaz de se impor aos deuses. Mas o que o diferença dos heróis homéricos, que lutavam na adversidade, é essa entrega à resignação, comprazendo-se com a sua própria dor, exibindo, às vezes, um passionalismo lúgubre, um conformismo levado ao extremo:

 

             “Não podes fugir

            ao negro fado brutal,

            ao teu destino fatal

            que uma má estrela domina.”

                                                (Fado da sina)

 

            Um dos aspectos mais caracterizadores deste género musical é o tópico do fado dentro do fado ou do “meta fado”: Há imensos fados que falam sobre si próprios, que tentam definir-se ou autoafirmar-se, e, junto a isto, também são recolhidos os sentimentos ao interpretar o fado, o que significa ser fadista, que entra dentro de uma definição do ser português, e fados que constroem, em certo modo, uma filosofia de vida:

                       

                        “Quem canta seu mal espanta,

                        lá diz o  velho ditado,

                        quero espantar a tristeza,

                        por isso é que eu canto o fado”

                                                           (Por quê canto o fado)

Muitas vezes o fado e algo interior, indissolúvel da pessoa e que nasce dos estados da alma:

“Trago fado nos sentidos

                        tristezas no coração,

                        trago os meus sonhos perdidos

                        em noites de solidão.”

                                                           (Trago fado nos sentidos)

Outras vezes o fado pode ser colectivo e inseparável dos bairros de Lisboa, do derrotismo e da transgressão:

                       

“Almas vencidas,

                        noites perdidas

                        sombras bizarras,

                        na Mouraria

                        canta um rufia

                        choram guitarras.

                        Amor, ciúme,

                        cinzas e lume

                        dor e pecado;

                        tudo isto existe,

                        tudo isto é triste,

                        tudo isto é fado.

 

Muito mencionadas nas letras são as guitarras e o seu trino, como símbolo de execução da música e a sua forma de acompanhar à festa ou à tristeza, com o seu som melancólico. Do outro lado, temos que mencionar o gosto pelas guitarras que sempre tiveram os portugueses (conta a lenda que à batalha de Alcácer Quivir foram levadas dez mil guitarras) e a sua presença contínua na corte.

 

 

       3-A SAUDADE PORTUGUESA

 

           

A palavra saudade vem do termo latino solitas, e é a única nas línguas românicas que mantêm o significado de nostalgia, o qual perdeu-se no castelhano e no galego, onde se empregavam os termos suidade e soedade, mas depois passou a usar-se a forma de añoranza, que não possui a mesma extensão e profundidade de sentido.

No entanto, em Portugal, a palavra saudade, manteve-se através dos séculos sem a mínima alteração de sentido. El-Rei Dom Dinis emprega-a nas suas Cantigas de Amor e de Amigo:

                        “Que soïdade, mia señora hei”

e também:

                        “Nom poss’eu, meu amigo,

                        Com vossa soïdade!”

 

Por não poder mandar “saúde”, como era usual, o poeta, “enfermo de amor”, mandava saudades que não se extinguiam. Essa saudade que destrói a saúde é ainda o mesmo “morrer de amor” das canções trovadorescas e do amor cortês:

 

                        “Como morreo que foi amar

                        Quem nunca lhe quis bem fazer

                        E da que lhe fez Deus ver

                        De que foi morto com pesar-

                        -Ai, minha senhora!-Assim morro eu!”

                                                                                  Dom Payo Soares de Taveirós

 

            O facto de manter este étimo e de consolidá-lo como uma das essências do imaginário lusitano, pode explicar-se também através da história: o povo português conviveu profundamente com os navios e experimentou sempre a mesma viagem entre o ser e o não ser, gravando no inconsciente colectivo a dor da partida, da separação, da incerteza. Por isso, a saudade não é um circuito fechado: combina com o sentimento do irremediável, um certo reviver que faz coincidir com o bem que se perdeu. Dai que a saudade comporte a ambivalência de que nasce, sendo um presente/ausente, tristeza/prazer ou, como escreveu Almeida Garrett,  um “ gosto amargo de infelizes.”

A saudade é uma das três palavras essenciais do “martirológio fadista”, como o designa Luiz Moita, que, misturada com as outras duas-amor e desgraça (no seu plano de destino trágico) forma a quinta essência das teses melodramáticas da canção lisboeta:

 

“ A saudade é portuguesa,

                        filha dum país amado

                        que se impôs com seu valor...

                        Ter saudade é ter tristeza

                        é saber cantar o Fado

                        vivendo para o amor...”

 

            Há vários tipos de saudade dentro das letras. Junto a saudade pelo amor perdido, que tem um claro predomínio,

 

                        “A saudade anda comigo.

                        Se já não ando contigo

                        tu não sais da minha frente.

                        Lê

                        Nas letras que canta ao fado

                        a saudade do passado

                        onde tu andas presente.”

                                                           (Agora chora à vontade)

temos também a saudade encarnada, que mantêm um diálogo com os protagonistas:

 

                        “Veio a saudade

                        sentar-se junto de mim.

                        Falou-me com amizade,

                        ninguém me falara assim.

 

            Por último, uma saudade muito difundida é aquela que canta os tempos idos, o fado de outra era ou a decadência de bairros como Mouraria, onde desapareceram os cafés onde se cantava fado e os seus intérpretes convertidos já em mitos:

 

                        “Eu comecei a pensar

                        que o louco que ninguém via

                        era a saudade a chorar

                        pela morte da Mouraria.”  

                      

 

 

 

4-O MAR

 

É desde o século XIII que o mar vem a ocupar uma posição destacada na lírica portuguesa. Como a maioria dos povos litorais, o português é pescador e marinheiro; porém, por razoes históricas, foi mais além: tornou-se navegador, olhou para o oceano e descobriu rotas ignoradas. No sentimento popular, o mar transformou-se num mundo específico, num destino, o que fez que o marinheiro português levasse nas costas, durante séculos, a fatalidade do destino.

            O Mar passou, assim, a integrar o imaginário colectivo dos portugueses e, cedo, consolidou-se como tópico literário, tanto de escritores cultos como populares. Já Fernando Pessoa recolheu tudo o que o Mar tem de influência directa no povo, neste poema do livro “Mensagem”:

 

                        “Ó mar salgado, quanto do teu sal

                        são lágrimas de Portugal.

                        Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

                        Quantas noivas ficaram por casar,

                        Para que fosses nosso, ó mar.”

 

            O fado impregnou-se desta sensibilidade marítima, desta visão dos homens que partem com a incerteza do regresso nas costas, das mulheres que esperam notícias no cais, do momento trágico da despedida:

 

                        “Disse-te adeus e morri

                        e o cais vazio de ti

                        aceitou novas marés.

                        Gritos de búzios perdidos

                        roubaram dos meus sentidos

                        a gaivota que tu és.”

                                                            (Disse-te adeus e morri)

Nesta herança também literária que entronca directamente com a lírica tradicional  e com as cantigas de amigo, é interessante comparar o sentido poético de uma da cantiga do século XIII,  com o de um fado do século XX:

 

“Ondas do mar de Vigo

                        se vistes o meu amigo

                        e-Ai, Deus!-se virá cedo?

 

                        Ondas do mar levado,

                        Se vistes o meu amado

                        e-Ai, Deus!-se virá cedo.”

                                                           Martim Codex

 

“Quando parte uma traineira

                        vai a Ribeira

                        e, com ardor,

                        pede às redes com carícias:

                        -Dai-me notícias                    

                        do meu amor.”

                                                  Silva Nunes

 

Assim, temos o mesmo tópico literário de pedir notícias do “amigo” e paralelismos estilísticos como a introdução do diálogo, que acentua o lirismo e a dimensão dramática.

            As origens incertas do género, dão lugar as teses poéticas de muitos investigadores, como é o caso de Tinop e a sua aproximação impressionista (“O fado nasceu a bordo, aos ritmos infinitos do mar, nas convulsões dessa alma do mundo, na embriaguez murmurante dessa eternidade de água.” ) e de poetas de fado populares e cultos como no caso de José Régio:

           

“O fado nasceu um dia

quando o vento mal bulia

e o céu ao mar sepultava,

na amurada de um veleiro

no peito de um marinheiro

que estando triste cantava.”

                                       (Fado português)                       

            Mas estas teses podem ter fundamentação se temos em conta o seu ritmo baloiçante, que lembra as ondas do mar e, sobre tudo, os documentos a partir do século XVI que falam das guitarras e violas que eram levadas à bordo dos navios para os marinheiros cantarem em horas de lazer.

 

 

 

5- A MITOLOGÍA FADISTA

 

 

Muitos são os mitos e os símbolos que aparecem nas letras dos fados, sendo, assim, difícil a sua classificação temática, mas há uma série de constantes que, a seguir, estudaremos em profundidade:

 

     

 5.1 Lisboa

 

Lisboa é outra das palavras chave do fado, que tem um espaço urbano muito marcado. É nas suas ruas, becos e vielas onde decorre a acção dos poemas, que limitam a localização dos acontecimentos ou dos sentimentos. 

Igualmente, encontramos fados festivos que cantam  Lisboa e as suas tradições: as procissões da Mouraria, as festas de Santo António, a noite de São João. Outras letras detêm-se a enumerar os elementos que dão encanto a Lisboa, incluídas as suas personagens genuínas:

“Tens casas branquinhas,

                        caiadas, velhinhas,

                        singelas; ardinas;

                        pregões das varinas

                        por estreitas vielas;

                        toureiros, fadistas,

                        fidalgos, artistas

                        lembrando o passado,

                        tens tudo o que queres,

                        tens lindas mulheres,

                        princesa do Tejo.”

                                                        (Princesa do Tejo)

 

                                                          

Assim, Lisboa tem conotações de mulher e a metáfora que a representa é a de princesa (fados como “Lisboa casta princesa”), sempre acompanhada do seu “namorado”, o Tejo:

 

“Lisboa dorme um sonho repousado

nos braços voluptuosos do seu Tejo...”

                                                           (Lisboa à noite)

Por tanto, os fadistas seriam uma espécie de juglares, que cantam o heróico de Lisboa e a sua beleza:

 

            “Lisboa das descobertas,

            de tantas terras desertas

            que deram brado no teu passado,

            da beleza tens a coroa,

            velha Lisboa da Madragoa

            quantos heróis tens criado.”

                                                     (Fado de Lisboa)

Mas, do outro lado, a cidade pode ser também cenário de crimes, em composições como “Rua das Gáveas.”. Este sensacionalismo, este gosto pelo truculento podemos compará-lo com o Romanceiro e os poemas de cordel que eram uma forma de difundir as notícias e as crónicas da cidade.

 

 

5.2 Os bairros e o mito da Mouraria

 

 

            Se Lisboa é o cosmos do fado, os bairros representam o seu microcosmos e são cantados com orgulho e constância. Porque o fado é essencialmente “bairrista” e é nestas freguesias, velho berço de varinas e marinheiros, onde se concentra toda a filosofia do povo e onde ainda hoje se mantêm as tascas de fado vadio, onde decorre a música num ambiente de improvisação e camaradagem entre fadistas.

      Mouraria, Alfama, Madragoa, Bairro Alto, Bica, por essa ordem, são os bairros tradicionais da mitologia fadista. A canção lisboeta é consciente do seu passado, precisa da sua história fundacional e muitas registram aqueles inícios nas suas letras:

           

“Antigamente

                        era coito a Mouraria

                        daquela gente condenada à rebelia (…)

                        A Mouraria,

                        mãe do fado doutras eras,

                        que foi ninho da Severa,

                        que foi bairro turbulento...”

                                                               (Fado Modesto)

Assim, a Mouraria, é sem dúvida o bairro mais cantado, e associa-se sempre a uma das suas lendas: Maria Severa, que morou neste bairro, na Rua do Capelão:

 

                        “Ai, Mouraria

                        das procissões à passar,

                        da Severa em voz saudosa

                        na guitarra à soluçar.”

                                               (Ai Mouraria)

A “casa da Mariquinhas”, criação de Alfredo Marceneiro, supostamente se encontrava na Mouraria e começou por ser um fado cuja letra evocava a vida de uma casa de  prostituição, vindo a transformar-se num dos leitmotiv mais recorrentes da produção de letras e tramas para fados posteriores. É interessante estudar a dimensão irónica de este fado, feito através do discurso implícito e do conotações simbólicas que têm elementos como “tabuinhas” ou “guitarra”:

 

            “É numa rua bizarra

            a casa da Mariquinhas,

            tem na sala uma guitarra,

            janelas com tabuinhas...”

           

São muito comuns os despiques entre bairros, que rivalizam para ver qual é o melhor, o mais castiço, o mais “fadista”, como esta composição que faz referência a Alfama:      

 

És  mais velha que a velhice,

                        mais marinheira que o mar

                        e mais fadista que o fado.”

                                                           (Alfama bairro velhinho)

 

Isto tem a sua origem nas marchas das ruas, que geram também um estilo de fado: o fado-marcha, com um ritmo muito marcado. Estas Marchas Populares surgiram em Lisboa por meados do século XVIII e consistiam em desfiles de ranchos de vários bairros da cidade, em que os pares de bailadores empunhavam arcos engrinaldados e balões coloridos iluminados. As festas dos Santos inspiraram também os poetas do fado:

 

                        “Tens cravos, balões, manjericos

                        pelo Santo António;

                        fogueiras, depois bailaricos,

                        ao som do harmónio;

                        cantigas, despiques, intrigas

                        d’amor e desejo...”

                                               (Princessa do Tejo)

                                                          

 

 

5.3-As varinas, as vendedeiras os pregões e outras personagens de romance bairrista

 

            O casario de Lisboa, o Rio Tejo, as vendedeiras e os pregoes são igualmente motivos de inspiração de fados descritivos, como no popular “Lisboa antiga”de José Galhardo.

A personagem da varina, símbolo dos bairros tradicionais, não é casualidade que ocupe uma posição importante dentro do imaginário fadista já que é uma espécie de mediadora entre a terra e o mar, está em contacto com os barcos, e a sua voz a pregoar o peixe é um dos sons característicos da capital. Se o fado é do povo, também adopta personagens que representam  Lisboa:

 

                        “Quando uma varina passa,

                        passa a velha Madragoa,

                        num pregão em que esvoaça

                        a graça que tem Lisboa”

                                                             

A varina também inspirou poetas cultos que escreveram letras de fado, como David Mourão Ferreira, cuja composição “Maria Lisboa”, retrata a figura da varina a través de metáforas ligadas ao mar:

 

“É varina, usa chinela,

            tem movimentos de gata.

            Na canastra, a caravela,

            No coração a fragata (…)

 

            É de conchas o vestido,

            Tem algas na cabeleira

            E, nas veias, o latido

            Do motor duma traineira.”

 

Mas não só as varinas formam  parte do imaginário fadista. Também encontramos vendedeiras de todo tipo: peixeiras do mercado da Ribeira, floristas como a violeteira da “ Moda das tranças pretas”, ou a Júlia Florista e vendedeiras de castanhas ou de fruta, como a “Rosinha dos limões”, cujo autor, Artur Ribeiro, não se limita a descrever a sua graça, mas a metamorfoseia numa personagem de romance. Isto revela a estrutura narrativa e descritiva de alguns poemas:

           

“Quando ela passa,

            franzina e cheia de graça,

            há sempre um ar de chalaça

            no seu olhar feiticeiro.

            Lá vai catita,

            Cada dia mais bonita,

            E o seu vestido de chita

            Tem sempre um mar domingueiro.”

 

Estas letras seguem uma velha tradição que se remonta ao século XV, onde se compunham poemas-com mote e voltas-que descreviam a beleza e virtudes de uma personagem feminina, como esta cantiga de Luís de Camões:

 

            “Descalça vai, para a fonte,

            Leonor, pela verdura.

            Vai formosa e não segura.”

 

 

5.4 Maria Severa, a lenda do fado

           

O fado, como todo género poético-musical, precisa dos seus mitos. Ao ir ampliando o seu espectro social, sentiu, por isso, a necessidade de construir os seus mitos de origem e de fixar as imagens das suas figuras fundadoras carismáticas, e a Severa tinha o perfil perfeito para convertir-se na heroína do fado(prostituta e cantadeira, que teve amores com o Conde de Vimioso e morreu aos 26 anos, em 1846), tendo em conta que ainda estamos em pleno Romantismo, movimento literário que gostava de esse mito da “mulher perdida” que morre prematuramente, nessa mistura de trangressão e de tragédia: 

“Chorai, fadistas, chorai                  

que uma fadista morreu,

hoje mesmo faz um ano                   

que a Severa faleceu.                       

 

Morreu, já faz hoje um ano,

das fadistas a rainha,

com ela o fado perdeu

o gosto que o fado tinha.”

 

                                   (Fado da Severa)

 

 Igualmente, no plano do imaginário popular, este modelo cruza-se facilmente com a evocação constante das imagens de martírio feminino precoce de que está tão recheada a hagiografia católica tradicional.

      Alguns observadores, fazem referência ao talento interpretativo da fadista, que se acompanhava com a sua guitarra e a apontam como improvisadora repentista de uma poesia satírica mordaz, alusiva a outras figuras do seu meio.

O mito da Severa foi crescendo durante décadas, paralelo ao alargamento da realidade socio-cultural em que se foi convertendo o fado. Assim, até o aparecimento de Amália Rodrigues, a idolatria pela Severa, nao sofre confronto, aparecendo em romances como o de Júlio Dantas, no teatro e até no cinema.

           

 

 

 

5.5 A Tauromáquia

 

      As touradas sao mais do que um motivo castizo no fado de Lisboa. Desde os seus inícios os dois mundos estiveram bastante ligados. Não devemos esquecer  que um dos primeiros espaços onde se cantou o fado, alem das tavernas e os retiros fora de portas, foi nas esperas de touros:

 

                        “Olhai senhores

                        esta Lisboa doutras eras,

                        dos forcados, das esperas

                        e das touradas reais.”

                                                           (Lisboa antiga)

 

A bohémia esperava toda a noite que chegassem os touros e também se cantava durante as touradas, e  exaltava-se a coragem de cavalheiros e banderilheiros:

 

 

                        “Adeus

                        touradas à portuguesa

                        onde a antiga fidalguia

                        fazia frente a um caraça.”

                        “Adeus

                        lindas vésperas das esperas

                        onde o povo aficionado

                        cantava o fado dolente”

           

O motivo da tauromaquia também dá lugar a outro tipo de fado: o fado marialva, localizado no Ribatejo e que tem como motivo principal as touradas e os cavalos.

 

 

 

5.6 Os motivos religiosos no fado

 

 

            Pode-se dizer que os fadistas são, em geral, um grémio bastante religioso. Isto poderia supor uma contradição se temos em conta as origens turbulentas do fado. Mas, talvez precisamente por isso, há uma certa “má consciência” à hora de interpretar o género e, desta maneira, invoca-se o perdão, no caso for pecaminoso, embora nunca exista uma renúncia ao fado:

 

                        “Que Deus me perdoe

                        se é crime o é pecado,

                        mas eu sou assim

                        fugindo ao fado

                        fugia de mim...”

                                               (Que Deus me perdoe)

 

     Outras vezes são os templos religiosos espaços de convívio onde se cantava o fado, como o popular “Igreja de Santo Estevão”, que também associa à temática da saudade e das saudades do fado antigo o falar sobre o próprio bairro:

 

    “Na Igreja de Santo Estevão,

     junto ao cruzeiro do adro

    houve em tempos guitarradas.”

 

e até se invoca ao santo para que voltem aqueles tempos em que havia camaradagem entre fadistas:

                        “Santo Estevão, padroeiro

                        deste recanto de Alfama

                        faz o milagre sagrado:

                        que voltem ao teu cruceiro

                        esses fadistas de fama

                        que sabem cantar o fado.”

 

        Outro santuário muito popular é a Capelinha da Senhora da Saúde, por encontrar-se no mítico bairro da Mouraria e cuja procissão imortalizou Alfredo Marceneiro em “Há festa na Mouraria.”

      Também são interessantes as “Ave Marias fadistas”, onde se misturam o fervor religioso com o profano, e que representam também uma oração para os fadistas que “não têm sorte”, que estão condenados ao fatum.

       Os santos mais queridos são, sem dúvida, Santo António e Maria Madalena. O primeiro por ser o padroeiro de Lisboa e ter nascido en Alfama e a segunda, por ser um exemplo de perdão, de que o fato de “perderse por amor” nao é “condenável”:

 

Quem por amor se perdeu,

                        não chore não tenha pena,

                        que uma das santas do céu

                        é Maria Madalena.

                        Jesús só nos quis mostrar

                        que o amor não se condena,

                        por isso quem sabe amar

                        não chore não tenha pena.”

                                                              (Maria Madalena)

 

        Por último, os santos também servem de calendário, para marcar as datas dos encontros ou desencontros das histórias narradas:

 

                        “Eu vi-te para São João

                        e començou o namorico,

                        quando São Pedro chegou

                        tu eras meu, eu era tua.”

                                6- OS ESPAÇOS DO FADO 

 

 O fado está presente em todos os momentos de convívio e lazer. Inicialmente confinado a ambientes marginais, vai-se demarcando e emergindo aos poucos. Alarga os seus espaços de sociabilidade e consolida o seu modo de ser como porta voz de uma cultura popular urbana, a que não são alheios os sofrimentos, as dificuldades e as injustiças do quotidiano. Canta-se dentro ou fora de portas, nas hortas, nas esperas de touros e nas touradas, nos retiros, nas ruas e vielas, nas tavernas, nos cafés de camareiras, etc.

Em primeiro lugar, a taverna tem acompanhado a história do fado, dos começos até os nossos dias como espaço importante das sociabilidades populares urbanas. E, ligado à taverna, temos o símbolo do cigarro que é uma constante que se detecta na primeira iconografia que procura ilustrar o meio fadista. Remite-nos para um universo de sensações e de envolvimento plástico que, de mistura com o vinho e a noite, está presente nos modos de produção e reprodução da gestualidade e convivialidade fadista. O fumo redefine o espaço e devolve-nos a uma estética em que o prazer e a trangressão confluem num desejo de abolir o tempo.

Outro espaço inspirador dos poemas são as janelas. Além de ser os olhos da cidade, a elas se alia o olhar enamorado. Com nítido sabor ao trovadorismo medievo, um poema de José Galhardo:

 

                        “Craveiro da minha janela-

                        -ai!-diz lá quem anda-

                        -ai!-a olhar para ela?

                         Craveiro da minha varanda-

                        -ai-a olhar para ela-

                        -ai-diz lá quem anda?”

 

 

      Dentro dos espaços externos, o mais característico é o da rua, também como microcosmos dentro dos bairros e onde têm lugar os encontros e desencontros, as mudanças temporais, os enganos, a saudade. Mas, muitas vezes, a rua costuma ser a própria rua dos protagonistas, que sofre uma mudanza no momento lírico e, como no fado a seguir, pode transformar-se em espaço de solidão, em metáfora do abandono:

                       

                                   “O candeeiro da sombra

                                   e até mesmo a luz da lua,

                                   não poem mais tua sombra

                                   nas pedras da minha rua.”